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| Ilustração de Charley Harper |
Eu sou a pessoa mais alérgica que eu conheço. E isso parece pouco, mas eu sou a pessoa mais alérgica que minha alergologista conhece também. E olha que ela atende muita gente. As banais eu sempre tive: poeira e ácaros, passando por mofo. A mínima exposição perto de uma pluma com mofo já faz com que meu nariz inche, meus olhos ardam e minha garganta coce, e, quando em crise, lá vem a asma. Picada de mosquito coça durante uma semana. Passei todos os anos da minha vida convivendo com isso, mas depois de velha, comecei a desenvolver umas alergias ainda mais estranhas. Calor me dá alergia atrás das pernas (?), e olha só, mussarela de búfala me dá falta de ar.
Eu sempre tive esse medo, esse pressentimento me rondando como uma nuvem: a alergia à frutos do mar. Porque, veja bem, eu sou nascida e criada em Fortaleza, na beira da praia, e aqui é mais comum comer camarão do que, por exemplo, carne de porco. E cara, eu amo camarão. Minha mãe faz uma receita simplérrima de camarão com um molho meio rosé que me faz chorar de tão bom. E um dia, fiz um risoto de camarão que faltei chorar. E não tão frequente, mas também uma realidade, as lagostas que meu pai prepara. Tão perfumadas, nada borrachudas, imersas num molho de queijo, com muita salsinha por cima, gratinados no forno. Ah.
Até que um dia eu descobri que tinha virado alérgica a camarão.
Meu mundo caiu.
Desde então, para poupar minha dor, evitamos sempre restaurantes típicos daqui, especializados em frutos do mar, porque eu não gosto de peixe. Aliás, eu gosto, mas de peixes muito específicos, daqueles que não tem gosto forte de peixe. Pode parecer loucura (até porque um peixe não pode ter outro gosto senão de... peixe), mas eu vou explicar: gosto de sentir o gosto do limão, do tempero, do vinho, do grelhado, do assadinho, mas não do gosto forte de mar. E é muito difícil achar um peixe assim, à toa. Muito mesmo. Então é melhor ficar nas massas, nos filés, e nos sushis (porque eu acho que sushi não tem gosto de peixe, tem gosto de sushi) (não me julguem).
Viajei com Marcelo Bernardo na Semana Santa, e fomos para a praia. Chegando na praia, não tive escolhas senão comer... peixe. Porque é absurdamente incoerente pedir carne, ou FRANGO, na beira do mar. Não vendo aqueles pescadores trazendo seus peixes gigantes nas jangadas. Não.
Só que na hora de pedir, meu coração se contorcia de dor ao olhar o cardápio. Pois, lembrando, eu amo, amo muito!, camarão. E sempre me deparava com as seguintes opções:
Tudo bem, esse cardápio é de um restaurante de Fortaleza, numa realidade completamente diferente de um restaurantezinho no litoral, mas dá pra entender. E aí vinha o peixe: peixe grelhado, peixe com alcaparras, peixada. Quando o lugar é muito, muito criativo, rola um peixe a delícia com bananas, ou um peixe com molho de camarão (ou seja).
Não estou brincando, olhem só a seção de peixes do mesmo lugar, que é um restaurante especializado em frutos do mar:
Eu vivo num mundo em que um peixe não pode ver um molho mais elaborado, senão entra em combustão? Em que é impossível empanar, flambar ou gratinar um sirigado? Ou os pescadores também estão cultivando um campo de alcaparras, e só vendem o pacote? Quão difícil pode ser imaginar um molho para um peixe que não seja de camarão, ou então a bom e velho caldo da peixada?
Eu, como uma impossibilitada de comer camarões e suas respectivas receitas cheias de criatividade, sou obrigada a me contentar com um peixinho grelhado com arroz branco. Todos os dias da semana santa, oscilando apenas entre a presença das alcaparras ou não. E muitíssimo chateada ao ver outros pratos que fariam minhas papilas gustativas dispararem, o Ratatuille soltar fogos. Porque não é que um peixe grelhado com alcaparras seja ruim, longe disso (especialmente se ele for bem temperado), mas é que ele seria tão melhor flambado. Empanado com coco. Servido num molho com queijo. Gratinado! Acompanhado de um risoto!
Vamos dar um tempinho pras alcaparras!
É pedir muito?
PS.: Fica aqui minha indignação pelo Murano Grill, que além de ter tirado o meu peito de peru (amor verdadeiro, amor eterno), também tirou o peixe mais criativo que já comi: com molho de frutas da estação e arroz negro! Murano, por que você faz isso comigo?!



































