(07/30)

–…a nossa casa – ele sussurrou, num esforço tremendo, com os olhos ainda fechados.


Tive vontade de gritar, de pular, um assomo de felicidade tomando conta de mim. É engraçado como, em pouco tempo, nossa vida consegue mudar devido a presença (ou à falta) de uma pessoa. Quis beijá-lo e abraçá-lo, mas meus carinhos foram interrompidos pelo enfermeiro, que agora me empurrava para fora do quarto, sua mão fechada firme em meu braço.


– Ei! – eu gritei – Ei, me solta! Eu preciso falar com ele!
– Sinto muito, mas você não me deixou escolha – ele respondeu, azedo.

A porta atrás de mim foi fechada, mas não sem antes que eu pudesse ouvir seu timbre irritado dizer: "o Z acordou".

* * *

Naquela noite, a insônia retornou, mas dessa vez cheia de outras lembranças e alegrias, a ansiedade e o amor enchendo meu coração ao mesmo tempo, fazendo com que o sono fosse impossível. Meu quarto vazio (agora que todos sabiam que ele estava bem) me envolviam com suas histórias, sua voz sussurrando "a nossa casa"... Incrível como basta notar que vamos perder alguém para passar a apreciá-lo ainda mais. Eu já o amava, embora apenas o pensamento daquelas palavras fizesse com que meu coração pulasse algumas batidas, e agora... O amor não cabia em mim.

Cheguei ao hospital na manhã seguinte sentindo uma enorme leveza, como se eu fosse capaz de flutuar até o saguão, e depois voar ao seu lado por um caminho de tijolos amarelos.

– Vim visitar o Alexandre – anunciei para a recepcionista, um sorriso enorme transparecendo em meu rosto. Alex... Alex.
– Ele foi transferido de hospital.
– Como assim ele foi transferido?! Falei com a mãe dele ontem a noite e ele estava aqui!

Ela deu os ombros. Toda a felicidade pareceu, mais uma vez, explodir como uma bolha. Tentei manter a calma, mas minha mente agora era incapaz de se concentrar. Como assim, ele havia sido transferido? Como assim? Ontem ele havia acordado, apertado a minha mão, sussurrado... A nossa casa. Sua voz. Seu corpo estirado no chão, com fios passando por dentro dele. Quão errado aquilo podia ser? O que estava acontecendo? Não era mais hora de me pegar lembrando da luz quando refletia no seu cabelo (oh, Heath Ledger, why so soon?), nem de seu sorriso. Eu precisava agir.

– Onde é o banheiro? – perguntei, tentando soar naturalmente, embora quase conseguisse palpar o nervosismo que começava a se apoderar de mim.

A recepcionista apontou, entediada, para uma enorme placa atrás de si. Terceiro andar. Não poderia ser mais conveniente.

– E onde ficam as escadas? Tenho pânico de elevador. Você sabe, espaços apertados, chance de ficar presa, cair no poço...

Ela me encarou com olhos vítreos, e com o mesmo arroubo de alegria, apontou-me uma segunda placa que dizia "Escadas". Despedi-me com a mesma falta de simpatia, e segui pelo corredor em direção à placa, tentando não parecer suspeita. Apesar de me distrair com facilidade, sempre tive uma boa intuição, e ela me dizia para me apressar, o tempo correndo contra mim. Quando não tinha mais no alcance da vista de ninguém, corri. Subi o primeiro lance de escadas, pulando os degraus de três em três, e ninguém pareceu notar a minha presença.

Clarice, a minha amiga, e não a Lispector, um dia havia me dito: "você precisa andar determinadamente, por mais perdida que esteja. Ninguém vai duvidar de você, se você puder passar a segurança que sabe o seu destino". No caso, estávamos perdidas no centro da cidade, procurando um ônibus para voltar pra casa; me pergunto o que ela diria se so ubesse que eu estava pretendendo fazer. Provavelmente estaria do meu lado, me dando cobertura.

Cheguei ao segundo andar, a imagem de Alex com fios no peito aberto voltou a me atormentar, e eu desejei ter lembrado de tudo que ele tinha me dito sobre o experimento – mas não, só conseguia ouvir sua voz rouca, linda, chamando meu nome. Alguma coisa como uma seleção para entrar num estágio... Ou seria uma bolsa? Ou ainda um trabalho da faculdade? "A nossa casa". Encontrei o quarto onde ele estava segundos depois, encontrando-o vazio, e foi como se o mesmo vazio tomasse conta de mim.

Quando conheci Alex, tudo pareceu se encaixar: minha paixão pela faculdade, meu amor no tempo livre, a vida no campus, meus planos para o futuro. A vida seguia num fluxo natural, completamente guiada pela minha felicidade. Pela nossa felicidade. Agora... Não havia nada, só o acidente, ele acordando, e agora sua ausência. Permaneci no quarto vazio, a cama impecavelmente arrumada, a janela semi aberta. E a sensação crescente de que algo muito errado estava acontecendo ali.

Sentei-me na cama, na mesma posição onde estivera no dia anterior segurando a sua mão, e pude ver um papel amassado escondido debaixo de uma cômoda. Apressei-me para pegá-lo, meus dedos trêmulos. Era a sua caligrafia! Os S fazendo curvinhas disformes, mas inconfundíveis.

Centro de Pesquisas Humanas em Z...

Era impossível ler o final. A letra estava borrada, apenas algumas tornando-se legíveis. Z... Zu? Zum? Zubat? Não, isso era um pokémon. Zumbot? Isso era uma palavra?

– Centro de Pesquisas Humanas em Zumbot – li em voz alta, tentando assimilar aquilo – Onde já vi essa palavra antes?

E então, lembrei.



PS: Essa história continua! Sim! Você pode ver o capítulo anterior no blog da Rafinha, e o próximo vai sair daqui a um dia no blog da Nathy. O que são Zumbots? Onde eles vivem? Onde está o Alex? Esse mês, na Máfia.
PS2: Estou viva, dizem.


  1. Caaaaaaaara!!! Que mãe fdp que levou ele pra outro hospitaaaaal!!!! Arrg!!!! Ele tinha acordado, tinha que ter ficado laaa!!! Quero saber se ele virou um zumbiiiiiiii aaaaaaaaaaaaaa!!!!! Muito bom, Gabi!!!

    Beijinho

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  2. Nossa Couth, ficou lindo...eu tô amando muito o rumo que este conto está tomando. E depois da Nathy, é a minha vez!! :D

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  3. MEU DEUS, LEMBROU DO QUE??????? Esse conto tá me matando. Só de saber que o mistério todo ainda demorará vários dias pra ser desvendado, dá vontade de... arghhhh!!
    Amei, amei, amei o que você fez, Gabi. "O Z acordou", wtf???

    Gente! Esse conto te fez ressuscitar o blog! <333
    Beijos

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  4. Muito bom, Couth! Trocou o drama pelo mistério e jogou panela quente no colo das amiguinhas HAHAHA Opa! E agora, Diana?

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  5. Arrasou Couth! Conseguiu voltar com a ficção pro conto! Estou ansiosa pra ver o que a Nathy fará disso! Gente, essa experiência tá sendo muito mais divertida do que eu pensava, hahaha. Amei, amei, amei!
    Beijos, e vê se pega o gancho e volta de vez pro blog, que eu sinto falta!

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  6. Porra, Alex tu tá dando muito trabalho p/ Diana & cia. Espero que no final saia casamento disso, no mínimo! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Tu tá alimentando minha curiosidade, Couth! Not fair! hauahauhau

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  7. Jesus!!!! O que farei disso???? kkkkkkkk.
    Gente, vocês são todas demais...uma mais criativa que a outra. Deus me ajude! kkkkk.
    Parabéns, Couth!!!

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  8. Cada parte que eu termino de ler imagino uma continuação completamente diferente! Espero ter criatividade pra continuar quando chegar a minha vez! Amei você ter voltado a falar do mistério da coisa, acho que tem que tomar esse rumo mesmo! O drama já tinha perdido a graça! hahaha E cara, sinto falta do teu blog!
    Abraços!

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  9. Curti a volta da ficção pro conto mas estou com dó da Nathy!!

    beijos

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  10. Socorro, estou amando esse conto. Magnífica a forma como você conseguiu redirecionar o conto para a ficção. <3
    Estou louca pelos próximos capítulos hahahah.
    Beijinhos.

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25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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