Saudades de Londres

Ontem, hoje e sempre. O blog está passando por mais uma mudança (e eu também!), e hoje, arrumando os arquivos do computador (até ele está se organizando para ir pro Rio), achei esse vídeo que fiz depois que voltei de Londres. Na época achei o vídeo péssimo, mas hoje assistindo me deu uma saudade enorme. Também ando saudosa com tudo, então relevem. E por favor, relevem também o fato do vídeo ter saído tremidaço, não sei o que acontece quando tô com uma câmera na mão, então não recomendo pra quem tem labirintite (de verdade).


Sobre escrever a mesma história durante toda a minha vida

Estou revirando o meu quarto de cabeça para baixo porque vou me mudar, e olha, não tá sendo fácil. Eu sempre morei entre as mesmas quatro paredes desde o dia em que eu nasci, no teto ainda tem o gancho onde foi pendurado o meu móbile de bebê, e no chão tem manchas de tinta de várias tentativas de artesanato durante anos e anos. Mas se tem uma coisa que é recorrente, e que me destrói, é o fato de toda a minha existência ter sido entrelaçada com uma única história, a que eu mais gostei de contar, e que aqui já falei um pouco.

Deve ter sido em 1999, quando eu, com uns nove anos, inventei a Sabrina. Inventei ela completa, 16 anos, cabelos pretos e olhos verdes, nascida no ano de 1983 (?). Eu confesso que devo ter pego a história dela ser a Black Cat de algum episódio aleatório de Homem-Aranha, mas tirando o fato do título e da roupa serem iguais (detalhes), tudo o que seguiu aí passou a ser meu. Era profundamente influenciada, claro, então Sabrina tinha amigas que se transformavam em guerreiras também, e elas lutavam contra o mal, e a Sabrina namorava com o Matt, e no futuro eles teriam uma filha, a Danny, que iria se perder dos pais por algum motivo. Sabrina era princesa do Planeta Felino (sim), Matt o príncipe, e todos viveriam felizes para sempre.

Alguns anos depois, com onze anos, conheci a Monique, e ela embarcou nessa jornada (cilada?) de escrever comigo, e montamos uma história com começo, meio e fim. Tenho os cadernos com as nossas letras de criança até hoje, e amo aquela história. E em 2005, com 15 anos, nos reencontramos e voltamos a escrever essa mesma história, só que com outro viés, e foi com isso que me deparei essa semana, limpando o meu quarto.

Eu já escrevi centenas e centenas de folhas. Milhares, talvez. Todas sobre essa mesma Sabrina, que agora tem olhos cinza claro quase branco, mas continua namorando com o Matt, e que, olha só, acaba mesmo sendo princesa desse mundo mágico chamado Phyra. Só que agora ela tinha uma mãe suicida, pais adotivos maravilhosos, uma amiga gordinha, um cara que não sabe direito se é só amigo dela, e enfim, um mundo todo. Aliás, três mundos. Ao me deparar com essa minha letra de adolescente, preenchendo cadernos e mais cadernos com essa história, não teve como não lembrar de mim. Porque, no fim das contas, essa história sou eu, assim como é a Monique também.

Eu com 15 anos, lidando com o colégio como se fosse meu escritório, no qual eu tinha seis horas diárias para me dedicar ao meu livro e aos meus desenhos (todos, sem exceção, voltados para o livro). De 20 cadernos que devo ter achado nessa limpeza, apenas um continha um tantinho de matéria, e era bem no meio do caderno, e só era de física. Lembro de ter uns catorze anos e guardar, junto ao caderno do colégio, esse caderno do livro. E também lembro de, aos quinze, ignorar solenemente o caderno do colégio, e levar apenas o de trabalho. Porque acho que acreditava naquilo como um trabalho, e aí entra aquela frase clichê de que quem ama o que faz, nunca precisa trabalhar.

E era verdade, porque não existia nada na minha vida que eu amasse mais fazer do que escrever. Esqueça desenhar, esqueça pintar, que também é muito bom. Desenhar é como transmitir o que você está vendo para o papel, você imagina uma coisa, começa, e no fim ela está lá. Ela nunca está do jeito que você imaginou, ou quase nunca, porque ela acaba mudando um pouco, mas pronto. Escrever era como sentir um mundo inteiro dentro de mim fluindo, e eu nunca tinha a menor idéia de onde aquilo tudo iria me levar. Se começasse uma cena com "Sabrina acordou naquela manhã" podia tanto terminar com um dia banal do colégio, como em um episódio sofrido e existencial dela presa. Onde? Quando? Em que momento essa cena se encaixa na ordem cronológica? Eu não tinha a menor ideia, mas mesmo assim, era mais forte do que eu. As cenas saiam completas, ou quase, os diálogos tinham voz na minha mente. Eu era totalmente dominada por esses personagens, por essas vidas, por tudo. Todas as músicas que ouvia me remetia a um ou a outro, e hoje, ao escutar esses cds, lembro um pouco de estar no ônibus indo para a faculdade, mas lembro muito mais daquele momento em que a Sara e o Diego terminaram. Lembro da cortina branca sacudindo na janela daquele cômodo que nunca fui em carne e osso, mas que visitei tantas vezes em minha mente, ouvindo aquela música, que impossível não lembrar dele. Que saudade.

Eu havia separado uma gaveta para guardar todo o material referente ao livro que encontrasse, mas não foi o suficiente, pois eu continuo encontrando pedaços dele em todos os lugares que me viro, e que não arrumei ainda. De vez em quando acho uma cena que a Monique escreveu, e fico besta ao pensar que ela também viveu tudo aquilo comigo, e como ela escreve incrivelmente bem. Como era estar tão dentro desse universo particular, e acho que nenhuma de nós duas estranhava o que a outra tinha decidido porque, no fim das contas, parece que a gente só transmitia o que já havia sido decidido por alguém. O livro era uma benção que nós duas recebemos e colocamos adiante, mas é óbvio que tivemos inúmeros momentos de debater o que iria acontecer, de como fechar as portas que deixamos abertas, e o que aqueles sinais que colocamos iriam significar no fim das contas.

Escrever, para mim, era me sentir completa. Se ler é uma delícia, imagina a ideia de que você está lendo algo completamente inédito, porque até um segundo atrás ele não existia. Mas eu não sabia que, depois desse namoro que é inventar, debater, editar e reler e reler e reler, existe essa fase estressante e em que tudo dá errado, que é a ideia de publicar. A gente sempre sonhou em ser publicada, e hoje vejo com uma cara azeda quem fala que é muito difícil escrever um livro. Não, meu amor, escrever um livro é tão natural quanto respirar, agora tenta publicar essa merda, tenta fazer alguma coisa com isso que não seja entupir dezenas de gavetas com ideias incríveis mas que, infelizmente, não se enquadravam no mercado editorial. A gente tentou de novo, e várias vezes, até o momento em que as rejeições foram mais fortes e a gente acabou perdendo o ânimo de continuar com aquilo. 500 páginas escritas de uma continuação, começamos a achar tudo ruim, a second guess tudo que já havíamos escrito. De fato, uma parte do livro não estava funcionando, mas o fato do primeiro estar morrendo afogado na praia pesava tudo. Então, simplesmente do nada, paramos de tentar.

Só que é simples você deixar algo para o lado e seguir com a sua vida, mas deixa você inventar de se mudar e se deparar com todos aqueles (TANTOS) cadernos, cópias impressas, e cartas de apresentação. E de você sorrir lembrando como era bom. E de você chorar porque talvez realmente fosse a fase mais feliz da sua vida, a de estar sentada com um caderno no meio da sala de aula, escrevendo. Eu sei que os tempos a frente são promissores, são bons, sei que o mercado editorial mudou, sei que podemos publicar independentes, mas havíamos perdido a força para fazer isso. É uma frustração muito, muito grande ser rejeitada, ainda mais quando se acredita tanto no próprio trabalho. Nos ligamos hoje. Choramos ao telefone, e lembramos de um monte de coisa - ei, lembra que a Roberta acha que tá grávida? Ei, você lembra daquele dia em que o Julio brigou com o pai? Por que foi mesmo? -, e decidimos que era momento de tentar de novo.

Mas, primeiro, vamos reler tudo. Temos duas caixas, uma gaveta, uns seis cadernos e umas três pastas de folhas soltas, além de umas 800 páginas escritas do word, e pelo menos uns 13 anos das nossas vidas adolescentes pela frente. E, se você quer saber, sinto que dessa vez vai dar certo.



25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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