Inventando Mulheres (23/31)

O mundo é um grande reservatório de pessoas estranhas, que acabam se encontrando, de vez em quando, se os deuses forem bons, acabam se apaixonando, e, apesar de tudo apontar para o contrário, acabam resolvendo ficar juntos para o resto da vida. Só que sempre tem aquele momento em que as pessoas acham que irão ficar sozinhas para o resto da vida, e como diria Joel,

Why do I fall in love with every woman I see who shows me the least bit of attention?


Estar num relacionamento é uma coisa complexa, que envolve duas partes igualmente dispostas a fazer tudo aquilo funcionar. Mas, ao mesmo tempo, é tão cômodo não se preocupar com outra pessoa, e apenas consigo mesmo. Eu sei que tudo que eu estou falando parece não fazer o menor sentido, e estamos nos dirigindo para um grande "sim, e daí?", mas calma que eu chego lá.


Essa semana estávamos assistindo, tardiamente, Her. Logo no começo, quando o Theodore está começando a conversar, e a se envolver com a Samantha, eu cheguei a conclusão que, olha só, olha ali a semente do amor de hoje. Porque sim, não é preciso que duas pessoas cheguem às vias de fato para que algo exista entre os dois: as conversas, o olhar apreensivo para a tela do computador (e celular) esperando uma resposta, aquele click infinito em milhões de assuntos. Tudo isso já é um tipo de relacionamento, que envolve uma quantidade enorme de pensar sozinho, e ao mesmo tempo, não pensar em nada, porque no fim das contas, não é muito real. Se eu não olho para você e te digo, com todas as letras, que estou afim de você, é porque esse sentimento crescente entre nós, que nunca nos encontramos, não exista, certo? Afinal, que dose de romance tem um "boa noite, durma bem"? Para alguns, nada, mas para outros, tudo.

Porque a pessoa, do outro lado da tela, é idealizada. Ela não é real.

1. Clipe - Aerosmith - Hole in My Soul



Nos anos 90 veio uma febre enorme desse software capaz de inventar uma mulher de carne e bits para te satisfazer. A história é sempre a mesma, aquela ficção científica em que o carinha nerd acaba inventando alguém já que a vida real não é lá essas coisas. Eu amo tanto o Aerosmith e esses clipes sensacionais que eles faziam, que difícil até escolher um favorito. 

Mas olha só o que está aí: existe uma menina real, de carne e osso e muitos problemas, que tenta chamar a atenção do rapazinho que está bem mais preocupado em inventar uma mulher que fosse impressionar o pessoal do colégio. Claro que é sensacional que a mulher saia de uma planta (?), a Eva Mendes novinha, mas é sempre absolutamente problemática essa história de ficar construindo mulheres por aí. Alguém mais assistiu "Weird Science", em que dois garotos faziam o mesmo? 


2. Mangá - Video Girl Ai



É inusitado eu falar de um mangá por aqui, mas estamos em BEDA, e vocês estão descobrindo muito sobre mim, hahah. Então, eu lembrei de Video Girl esses dias por outros motivos, mas fiquei com a história mais uma vez na cabeça, que, vejam só, é mais uma vez a mesma.

Ele conta a história do Youta, um carinha meio nerd e sem o menor talento com as meninas, perdidamente apaixonado pela menina fofinha da sala (que não liga para ele, e acho que acaba ficando com o amigo cafajeste - sempre), mas que não sabe o que fazer. Ele acaba entrando numa locadora de filmes misteriosa (hahah), aluga um filme adulto para passar o tempo de tarde. E, dessa fita de vídeo, sai a Ai, uma menina que não é real, mas é a forma perfeita de uma mulher que todos sonharam, e ela tem o prazo até a fita acabar para mudar a vida dele.

3. Filme - Her





Então voltamos para Her, num mundo futurístico em que é possível que você se apaixone por seu computador, e mantenha um relacionamento com ele, e meio que todo mundo ache isso normal (tenho um leve medo desse futuro). Além do relacionamento ser construído de uma forma bem singela, afinal, é profundamente romântico você se apaixonar por alguém levando em conta apenas o que aquela pessoa é, não o que aquela pessoa aparenta, e juro, tem mais tensão sexual naqueles "bom dia" do que em muito romance por aí. Porque aquele bom dia implica alguns momentos de expectativa, de não poder esperar para falar com a pessoa, mesmo ela sendo o seu sistema operacional (?).

Só que aí vem uma pessoa, de carne e osso, dizer para o Theodore com todas as letras que é muito cômodo namorar virtualmente, já que ele não tem a capacidade de lidar com os sentimentos da vida real.

Porque a mulher imaginária do outro lado da tela não tem calcinhas furadas que ela escolhe quando quer dormir confortável, ela não tem mau hálito de manhã, ela não tem crises na tpm, ela não fica melancólica, ela não acorda virada com os macacos. Ela está, sempre, compartilhando apenas o que ela quer, quando ela quer. E isso não é nem perto de ser real. O Theodore não teve o trabalho de construir uma garota a partir de uma planta (que gênio), e nem a sorte de ter alugado uma fita misteriosa, mas no entanto, a garota daquele sistema operacional é tão inventada quanto.

E isso cai na velha história das manic-pixie-dream-girls, projetadas única e exclusivamente para colocar a vida do protagonista perdedor nos eixos. Porque nós, mulheres, não estamos aqui para salvar ninguém, e muito menos ser salvas. É muito fácil conhecer uma menina bonita, fantasiar sobre ela, e manter conversinhas aleatórias em redes sociais, onde ela mostra que está bem, ganha bastante, viaja e é interessante. Mas a vida é tão mais do que isso, concordam? E os relacionamentos, então...

>>> Hoje fizemos uma postagem coletiva em que todo mundo escolhia um assunto e fazia algumas indicações sobre o tema. Eu sempre soube que ia ser mega aleatório, mas cada post está incrível: a Analu conversou sobre Maternidade, a Anna fez um guia que já imprimi e colei na porta do meu guarda-roupa de como ser uma gótica suave, a Passarinha falou sobre mulheres maravilhosas, a Iralinha sobre liberdade e a Sharon sobre o universo do cinema.
  1. Amiga, adorei esse tema que você escolheu, é algo que eu penso muito. Her desgraçou demais a minha cabeça, porque eu acho esse futuro por demais palpável. Lembro de um ensaio do Jonathan Franzen em que ele escreve que a publicidade costuma usar adjetivos como "sexy" pra vender smartphone, porque eles têm esse apelo de serem uma resposta rápida e perfeita pra todas as nossas necessidades, e a gente acaba se fechando num universo de coisas fáceis e "curtíveis" e ficando cada vez mais alheio à vida real, que é tudo menos fácil, curtível e despretensiosamente sexy como um celular. Isso é algo que se aplica tanto para mulheres como pra homens, mas a questão da idealização feminina já vai muito além disso, né? Penso em 500 Dias, Paper Towns, e algo que pra mim é um exemplo GRITANTE disso é o relacionamento Ross e Rachel. Pra mim a forma como o Ross enxerga a Rachel é uma síntese muito perfeita do padrão dos homens idealizarem uma mulher e a forma como eles se frustram quando elas se mostram mais do que o sonho perfeito deles. Tipo quando o Ross faz aquela lista e coloca todas as coisas que a Rachel tem/é/faz que fogem do ideal de perfeição que ele cria na cabeça dele. E é impressionante que TODAS as brigas dos dois envolvem a Rachel fugindo desse padrão e mostrando que é mais do que a menina perfeita , rainha do baile que ele tem na cabeça.
    Enfim, viajei, desculpa, Aerosmith é show demais, né? Já visse o clipe de "Hoje", da Ludmilla? É tipo Mulher Nota Mil, só que ao contrário. Lud <3
    beijos, te amo <3

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  2. Ainda não assisti Her, não porque não queria, porque não tive interesse, mas porque ele fala sobre algo que penso com certa frequência e acho muito louco mas tão possível, sabe assim? Sei lá, morro de medo do que pode estar aguardando a gente ali num futuro assim nem tão distante. Não sei, não sei, não consigo raciocinar muito bem. Talvez eu volte com um comentário digno de um post que me fez pensar demais, como foi o caso.

    te amo <3

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  3. Amiga, que tema inusitado!! Adorei!!
    Ainda não assisti Her porque sou eu, né? Mas é um dos que tenho para sempre na minha lista mental de "to watch", hehehe.
    E achei incrível você indicar um Mangá, amo quem indica mídias diferenciadas <3

    Te amo!!!!!!!!!!!

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  4. Que tema incrível!! Esses dias comentei no blog que eu tenho muito medo desse futuro virtual e que ele vai ser muito confuso, mas acho que vai ser isso mesmo: relacionamentos cada vez mais "artificiais", mais a distância, mais dessas projeções que fazemos sobre o outro. Isso me assusta muito. Talvez por isso eu ainda não tenha visto Her - muito menos lido o mangá - porém essa música de Aerosmith, sem brincadeiras, eu escuto TODOS OS DIAS DE MINHA VIDA, pois ela está no meu celular e aff Aerosmith sabe? <3

    Te amo!

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  5. Também ainda não assisti Her, sou aleatória e por fora de tudo no universo. Mas adorei o tema que você escolheu e achei incrível que até mangá apareceu na lista.

    Essa história de relacionamentos com máquinas também me parecem muito o futuro. Pra muita gente (incluindo eu, oi) relacionamento interpessoal é uma coisa muito complicada e cansativa, e é tentadora a ideia de ter um relacionamento sem precisar ter realmente um relacionamento. Não ter que levar em consideração uma outra individualidade, olha que maravilha (e ao mesmo tempo, não).

    Vou assistir Her. Hoje, talvez. Apesar de estar LONGE de ser o melhor momento. Todo mundo já sabe que eu só faço escolhas equivocadas mesmo.

    Beijos, te amo <3

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  6. Adorei o tema.
    Eu sou muito suspeita pra falar de Her porque é um dos meus filmes favoritos. Eu não acho desculpas para o Theodore, concordo que é muito fácil idealizar alguém que tá atrás de uma tela, e ao mesmo tempo eu só queria abraçar ele e dizer que ia ficar tudo bem. Não pela idealização, porque é errado, mas porque no fundo ele só queria que alguém dissesse pra ele que ia ficar tudo bem, que ele foi compreendido, que nem tudo na vida dá pra resolver. E eu acho que basicamente era o que a maioria das pessoas daquela realidade queria (é o que todo mundo quer), e por isso o sistemas deram tão certo. Achei bem necessário que a ex-mulher dele jogasse na cara a realidade, mas ainda assim não condenei muito.

    Concordo muito com o que a Anna falou sobre a Rachel e o Ross, e acho que no geral muitos dos relacionamentos que a gente vê na TV são dos caras idealizando as gurias e se sentindo muito injustiçados quando percebem que elas são só pessoas.

    Um filme que vai MUITO de encontro ao tema, e eu indico caso tu não tenhas assistido, é Ruby Sparks.

    E uma hora dessas, assiste Her e Lost in Translation meio juntos. Vale a pena. O Spike e a Sofia eram casados e muita gente enxerga os elementos do casamento deles nos filmes.

    Beijos!

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25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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Esse blog está vestido com as roupas e as armas de Jorge, porque ninguém há de copiar esses textos e ilustrações sem dar o devido crédito.