O Teatro dos Vampiros (28/31)

Eu estava indo para a aula da pós esses dias quando peguei um ônibus errado (sempre), que ao invés de me levar pelo caminho conhecido e relativamente rápido (1:30h), me levou pelo caminho mais engarrafado do mundo (cheguei depois de 2:30 de ônibus). Enquanto nesse caminho engarrafado, tipo, mesmo, coisa de 40 minutos para andar um quarteirão, dois jovens entraram no ônibus. Uma menina magricela e um cara mais fortinho que ela, ambos de uniforme da escola, abraçados. Passaram o engarrafamento inteiro se amassando no meio do ônibus, assim, bem foda-se todos, olha o nosso amor. Acho inclusive que eles escolheram pegar esse ônibus: tudo bem chegar em casa em uma hora quando deveria ter chegado em 20 minutos, para poder passar essa uma hora dentro do ônibus se beijando, certo?

Eles não conversavam muito, só se beijavam. Ah, os quinze anos.

Vocês já pararam para reparar naqueles casais que, antes da era dos iPhones, ficava mudo um do lado do outro em restaurantes? Não conseguiam se olhar, não conseguiam conversar, apenas olhavam para o abismo. Hoje em dia, fica cada um no seu whatsapp, a luz da tela iluminando cada um, e também não trocam nenhuma palavra. Mas também nem se beijam.

Ontem eu estava lendo o encarte da Taylor Swift e pensando em mudanças junto com ela. A gente é sempre levado a pensar que as pessoas que amamos não vão mudar: não adianta, você não tem a capacidade de mudar a vida de ninguém, nem de ninguém mudar a sua, todos nascemos e crescemos assim e iremos morrer assim. Já ouvi uma frase terrível e machista que diz que a mulher se casa esperando que o homem mude, e o homem casa na esperança que a mulher nunca mude, e assim ambos vivem o resto da vida frustrados. Por que as mulheres deveriam mudar, e os homens não? Isso não faz o menor sentido.

Todo mundo muda. O casal jovem se amassando no ônibus, pode, se continuarem juntos, daqui a alguns anos, estar num restaurante olhando cada um para o seu abismo/celular. Ou pode ser que eles encontrem pessoas incríveis nessa vida, que se olhem dentro do olho, e que riam, e que conversem sem parar até ficar com sede.

A gente muda a cada momento, a cada instante. Como a Taylor disse, é preciso coragem para mudar. Eu nunca ia imaginar que iria morar no Rio de Janeiro aos 25 anos, recém casada. A vida nunca foi tão ruim, mas também nunca foi tão boa. Às vezes a gente precisa de um certo distanciamento histórico para absorver melhor o que estamos vivendo no presente: os dias que parecem terríveis, mas na verdade nem são, os problemas que de fato eram enormes, mas que a gente conseguiu superar, um por um. Cada problema resolvido provoca uma mudança dentro da gente, e eu li um dia desses que, depois de sete anos, todas as suas células são substituídas (cada uma em seu tempo). Em sete anos, seu corpo é outro, por que você não seria também?

Mudar é fácil, mas aceitar a mudança dos outros pode ser difícil. É completamente diferente conhecer uma pessoa aos 16 anos e vê-la, hoje, aos 26. Os hábitos, os trejeitos, tudo muda. Não somos mais um casal adolescente, num primeiro encontro, indo a pé para um shopping center, com vergonha de dar as mãos, e trocando beijos na escada-rolante. Somos um casal adulto, num encontro que nem é encontro assim, indo a pé para outro shopping center, dando as mãos porque é natural, e sem trocar beijos na escada-rolante. Acho que todos deviam trocar beijos na escada-rolante sempre que possível.

Ouvimos músicas dos anos 80 que meus pais cantaram um para o outro, e nunca elas foram tão próximas. Ouvíamos essas mesmas músicas com 16 anos e não entendíamos nada: como envelhecer dez semanas a cada hora que passa, já que voltamos a viver como há 10 anos atrás? Que confusão essa história de ser adulto, né.

A gente muda, mesmo. Boa parte do que eu sou hoje eu devo à tudo que vivi, desses 16 anos para cá. Mas o que me mudou, mesmo, foram todas as pessoas que conheci nesse percurso. Aprendi muito com todas elas. E isso inclui a pessoa que escolhi ver todos os dias, já que ele mudou também, e ele não para de me ensinar coisas novas. Mudamos um com o outro. Mas também mudei ao olhar para mim mesma, para o que escrevi para mim, para o que me aconteceu nesse tempo todo. E espero, sempre, mudá-lo um pouquinho, também.

Será que somos pessoas melhores? Eu espero que sim, mas deixa o distanciamento histórico chegar para eu ter certeza.

Eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir

  1. Olha só esses dois adolescentes abraçados deitados no chão!
    Amiga, acho lindo isso de evoluir junto com alguém, sabe?
    Eu acho que todas as pessoas que passam na nossa vida tem alguma razão de estar ali, sabe? Seja para mudar pouquíssimo, mudar muitão, mudar para melhor ou para pior, sabe?
    E a melhor parte é que isso garante que todas as fases passam: as boas, para que a gente tenha saudade; as ruins para que a gente se livre.

    Te amo! <3

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  2. Eu tive que ler esse texto duas vezes antes de mimar. Na primeira eu chorei horrores, esqueci meu nome, esqueci da vida, só sabia sentir e querer te abraçar. Na segunda fui um pouco mais contida, chorei um pouquinho e ainda quis te abraçar demais. Ainda quero, aliás.
    Mudanças são inevitáveis, né? Pra gente, que começou a namorar tão cedo, isso talvez fique ainda mais claro. Estávamos todos numa fase de transição, no fundo acho que estamos ainda, descobrindo a vida e essa loucura que é ser adulto. É natural que a gente mude no processo, mas como você mesma disse, às vezes é difícil aceitar. O que eu sempre venho dizendo pro Gui é que, enquanto a gente continuar amando a pessoa que o outro está se tornando, vai ficar tudo bem. Mas vale sempre lembrar que é ótimo ser um casal adulto, mas que nunca é tarde pra ficar dando uns beijos nas escadas rolantes. Enfim, é um mimo meio aleatório, mas estou aqui, te dando a mão e sentindo demais esse momento.

    te amo muito <3

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  3. Ai amiga, que coisa linda.
    Acho que amadurecer, mudar e se transformar do lado da pessoa que escolhemos passar o resto da vida é uma das coisas mais bonitas desse mundo. Às vezes eu paro e penso muito nisso. Penso que é muito louco o quanto a gente já mudou e não consigo nem imaginar as mudanças que ainda vamos passar, mas a vida é incrível e vale a pena passar por todos os perrengues e problemas quando se olha por esse lado. Melhor ainda quando temos o amor da vida do lado e uns beijinhos na escada rolante. <3
    Te amo, amiga. Obrigada por estar na minha vida hehe <3

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  4. Nunca vou cansar de me impressionar com as fotos de você e MB jovens. Primeiro porque tão novos e tão fofos e tão vocês, e segundo porque QUEM SÃO ESSAS PESSOAS PLMDD?

    Entendo de namoros longos o mesmo tanto que entendo de pescaria, mas tenho uma teoria mesmo assim: acho que a gente muda sim, muda demais, e que bom que é assim, e acho que a partir dessas mudanças sempre surge um relacionamento diferente, sabe? Eu vejo muito isso na minha vida com relação Às amizades: é muito evidente pra mim o momento que eu mudei, a outra pessoa mudou, e as pessoas que nos tornamos não têm mais tanto em comum ou motivos para continuar aquela amizade, pelo menos não da forma como era antes. E aí a relação muda. A gente pode descobrir uma amizade diferente a partir de quem nos tornamos, ou então deixar pra lá e seguir a vida, no regrets just love.

    O importante é garantir que quem quer que vocês se tornem, vocês sempre busquem um motivo pra ficarem juntos e fazer dar certo.
    beijo
    te amo!

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25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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Esse blog está vestido com as roupas e as armas de Jorge, porque ninguém há de copiar esses textos e ilustrações sem dar o devido crédito.