Essa tal de mudança de vida




Alguns momentos da nossa vida são reviravoltas tão rápidas que a gente chega perde o fôlego do giro, e fica desnorteado pra onde ir a seguir. Foi assim que eu me mudei pro Rio: de repente, saí do meu emprego, e deixei nele um peso enorme, e muito mais leve, trouxe em três malas toda a minha vida para cá. Passei dois meses, jamais sozinha, voltei para buscar o meu amor, e cá estamos. No Rio.

Quando a gente tinha pensado nisso, há vários meses, sentados no Arpoador e vendo o pôr-do-sol, tudo parecia lindo. Estávamos ganhando bem, a poupança estava gorda, a cama feita (e a rede!) me esperando em casa, enfim, toda essa certeza que só a rotina pode trazer. O casamento estava se encaminhando, mas para o quê? Viver o resto de nossos dias reféns dessa cidade que eu odeio (desculpa), nesse humor oscilante, e ter finalmente admitido que a vida é só isso mesmo? Sempre tive pavor de quem achava que a vida "era só isso mesmo", então como estava virando aquilo?

Fizemos nosso quarto, enchemos com nossas coisas, trouxemos lembranças, presentes de amigos. Compramos o que nunca tínhamos comprado, tipo colcha de cama. Elástico. Quantos elásticos são necessários? E esse climatizador é melhor que um ventilador comum, ou é roubada? E então, mesmo com a cabeça cheia de tarefas, preenchendo nossos dias que já parecem um sem fim, fica no fundo da garganta aquele medo.

Que medo.

E se nada der certo?

Bom, o certo deixamos pra trás, na terrinha, junto com o queijo coalho e o clima agradável. Aqui estamos no louco, no sem pé nem cabeça, completamente sem chão. E se nada der certo? Ele me olha preocupado com a grana, com o estilo de vida que a gente levava antes, e que queria muito continuar vivendo, mas a poupança infelizmente vai ter um fim. Tantos restaurantes que a gente quer conhecer, e temos que começar a nos preocupar com o preço dos tomates (eles tem gourmet na embalagem, devem ser mais caros, certo? Melhor nem levar, né? Nem queria tomate mesmo). E o medo de nada dar certo?

Será que não era melhor ter deixado para vir só em junho, depois do casamento, ter trabalhado mais esses seis meses + décimo terceiro, se organizado melhor? Será que teríamos nos organizado melhor? Ou será que continuaríamos a viver a nossa vidinha sem graça, até que num susto arrumaríamos nossas malas? A gente nunca foi muito bom de planejamento. 

Eu gosto de pensar que viemos na hora certa.
Que o aqui é agora, e se tá com medo, vamos com medo mesmo.
Viemos, chegamos, e estamos aqui. Aterrorizados, com dinheiro curto, procurando emprego, mas com um sorriso no rosto e um alívio no peito que não nega: aqui é o nosso lugar. Rio, estamos prontos para você.



Obs.: se você morar no Rio e por acaso souber de alguma coisa, quiser me indicar para algum trabalho, quiser pedir alguma ilustração, mandar um oi solidário, quiser ser amigos e vizinhos, tiver uma dica de prato feito barato, ou mandar um sinal de fumaça (gelada? que calor?), por favor - gabrielapinheiro @ gmail.com


25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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Esse blog está vestido com as roupas e as armas de Jorge, porque ninguém há de copiar esses textos e ilustrações sem dar o devido crédito.