Sobre Consumo, Fast Fashion & Armário Cápsula

Ou: Senta que lá vem o Textão
Ou ainda: Não sei muito bem o foco desse texto, mas estou com vontade de falar sobre isso

Eu não sei se posso ser classificada como uma pessoa consumista. Talvez eu seja. O fato é que sim, tenho muita roupa, sim, já tive muitos sapatos, sim, já tive uma boa quantidade de acessórios. Antes de me mudar para o Rio, há praticamente um ano (!!!), eu precisei rever tudo que eu tinha no meu armário. Não ia dar para levar tudo, eu sempre tive muito apego à algumas peças que já não serviam há anos, e foi a hora de ser dura comigo mesma e deixar metade daquilo para trás.

Eu não sei se sou consumista, mas eu gosto muito de comprar. Eu sinto um frisson quando vejo uma peça que eu ame, uma palpitação quando ela serve, e se o preço for bom, eu dou um pequeno desmaio de felicidade. Se ela for meio cara, sempre tive a consciência de pensar: vai combinar com as coisas que já tenho? Se eu parcelar, ainda vou amar até ela estar terminando de vir as prestações? Ela é boa mesmo? Eu realmente preciso desse vestido? Se tudo for sim, levava com um sorriso no rosto, acreditando estar fazendo, geralmente, o melhor negócio do mundo. Agora, se a peça fosse baratinha, ou melhor ainda, fosse super cara e estivesse baratinha, eu não pensava duas vezes. Foi assim que comprei uma coleção de casacos da Farm, no auge do verão cearense, sem questionar se eu ia usar ou não no futuro: o negócio era bom demais para eu não levar. Não importa se nunca vou usar esse casaco maravilhoso de tapete, ele era 600 reais e está por 70: não importa nada, já é meu. Acabou sendo o melhor negócio do mundo, afinal, uso esse casaco sempre, e os outros também.

Quando abriu a Forever 21 no Brasil, eu estava em São Paulo com uma amiga logo depois, e encaramos a fila para comprar. A fila era enorme, a loja estava entulhada de gente, tudo bem desorganizado, tocava uma música super alta, estava todo mundo maluco, a fila do provador era maior que a fila para entrar, enquanto a fila dos caixas era inexistente, achei tudo feio e mal-feito, mas não sei como: uma hora depois estava do lado de fora da loja, com três sacolas. Não provei nada porque estava barato demais e nós tínhamos pressa, então fui no olhômetro, e depois direto para o caixa pagar (já que não tinha fila nenhuma). No fim das contas, nem lembro o que comprei esse dia, além de um casaco faltando uns três botões (ainda uso ele por aí) (sempre compro casaco, não sei qual o meu problema).

Fiz esse esqueminha em 2012 e continuo usando 95% dessas roupas
(mas os sapatos todos eu usei até eles se acabarem)

Como eu era estilista, estava sempre ligada nas ~ tendências ~, fazíamos muitas viagens de pesquisa, víamos moda o dia inteiro. Nessas viagens de pesquisa, andávamos em todos os shoppings da cidade, entrávamos em todas as lojas olhando tudo, provando tudo, para depois levar as novidades de volta para Fortaleza. E, nessa de olhar tudo e provar tudo, acabávamos comprando também um bocado. Mas nunca me endividei, nunca gastei mais do que ganhava, e nunca comprei coisas que já tinha. Não estou me defendendo, mas já vi muita gente fazer isso, então.

Mas aí tudo mudou porque não sou mais estilista (por enquanto, pelo menos) tem mais de um ano, e decidi me mudar. E as sacolas da Forever 21 cheias de roupas estranhas não podiam ir comigo, que não ia ter espaço físico para guardar 1/5 daquilo. Organizei um bazar, vendi felizmente muita coisa, doei um bocado, e desde então estou sem comprar.

Vou fazer um atualizado desse ano e mostro para vocês
(por onde anda essa blusa de bolonas?)

Passar um ano sem comprar por necessidade coloca tudo numa perspectiva muito doida. Parei de acompanhar os blogs de looks do dia (aliás, todos paramos?), meu Pinterest entrou no vórtice do casamento e da decoração, e eu simplesmente não tenho mais grana para comprar roupas. Pura e simplesmente, acabou chorare. Mesmo as pechinchas. Por isso nem olho mais, porque dava um desespero profundo estar diante do melhor negócio da história, não ter dinheiro para comprar, se agachar e chorar em posição fetal dentro do provador, sair com a cara blasé dizendo "gostei não querida" para a vendedora.

Mas por que estou contando essa história gigantesca, quando o título do post pode ter guiado alguns leitores desavisados que não sabem que não consigo ir direto ao ponto, tipo, nunca? Calma, que eu chego lá.

Eu nunca gostei de comprar em lojas de departamento pelo simples motivo de saber comprar melhor desde sempre. Parece esnobe, mas eu simplesmente não me sinto intimidada para entrar numa loja chique que está de promoção, de catar as peças mais baratas, provar e levar, por um valor ínfimo uma peça de qualidade e, bom, única. Eu nunca gostei de comprar em lojas de departamento porque eu sabia que isso implicava que teria uma dezena de gente andando por aí igual a mim, enquanto se eu comprasse em boutiques a chance disso acontecer era muito, muito menor, e eu sempre consegui encontrar valores similares em promoções, como o caso do casaco da Farm.

Por exemplo, encontrei o vestido da minha dama maravilhosa Pássara numa loja de grife. Era uns 5 tamanhos maior do que ela, mas a loja tinha serviço de ajustes, e foi super, ultra, barato. Enquanto, em outro momento, fui com uma amiga na Renner comprar um vestido para ela sair, encontramos um por pouco mais de 100 reais, só que chegando na festa tinha outra menina igual. Estão acompanhando meu raciocínio?

Eu ainda comprava um bocado na Zara pelo preço, e pelo fato de Fortaleza ser atrasado e não ter por lá. Mas desde então, de forma involuntária (pobre), parei. Só que desde então já vi meia centena de pessoas diferentes com a mesma t-shirt de cactus / corações que lançou um tempo atrás.

Aí eu assisti o documentário "The True Cost" no netflix, tive uma crise existencial, me enrolei num casulo, e quis chorar. Porque a situação desenfreada do consumo hoje em dia é surreal. Fiz um trabalho sobre isso para a pós, e em uma das minhas leituras veio toda a conclusão necessária nessa nossa postura pós-moderna do consumo: consumir deixou de ser um meio para se tornar um fim. O propósito dessa coisa toda é gastar dinheiro comprando.

Percebi então a mudança das pessoas para outro tipo de tendência, que é a de se questionar todos os valores. Não estou reclamando, muito pelo contrário, mas já que estou aqui pobre assistindo de camarote, acho que consigo perceber movimentos que quem está inserido não consegue. As pessoas não querem consumir mais tanto desenfreadamente, elas querem construir um armário cápsula que dure uma estação, com peças mais duradouras, neutras e que combinem entre si.

E então elas estão todas, de forma desavisada, procurando tendências em lojas melhores (tudo bem) que vendam os mesmos produtos (tudo mal). Queridos que estão procurando um armário cápsula e subitamente sentiram um impulso de usar cinza mescla e preto: esse súbito impulso se chama tendência. Isso também é moda. Esse negócio de usar um armário cápsula é moda. É uma moda melhorzinha? Sim, mas também é moda.

Minha musa de street style

A grande maioria das minhas roupas sempre combinou entre si, mesmo sendo estampadas e/ou coloridas. A calça verde que comprei três anos atrás ainda é a calça verde que uso, não importa se não tá mais na moda, ou se a moda agora é calça militar (acredito que seja). Só que então eu vejo as pessoas entrando em grupos e dizendo tipo: onde encontro tal peça? Faltam tantos meses para a estação acabar, então essas tais peças aqui poderão ser substituídas? (?)

Estar desempregada me forçou a consumir menos, a usar mais as roupas que tinha, e a estragar 80% dos meus sapatos (eu tinha muitos, então podia fazer uma rotatividade maior). Me forçou a pensar no meu armário com o um todo, perceber que algumas roupas são incompatíveis com o Rio de Janeiro (a gente é muito mais chique em Fortaleza), e desejar algumas várias coisas que também só consigo usar aqui (o meu colete de crochê com franjas sempre vai passear em Fortaleza dentro da mala e volta sem ver a luz do dia). Esse tempo enorme sem consumir me fez perceber as tendências de fora, o que funciona ou não com o meu corpo, que roupas que comprei que realmente uso, quais combinações que já estão ficando cansadas (eu era a rainha do mix de estampas).

Acho engraçado as pessoas se proporem a construir um armário cápsula todo em tons de preto branco e cinza mescla e ignorarem as peças que levaram uma vida inteira para comprar (eu, pelo menos, tenho roupas de 10 anos no meu armário que continuo usando, beijos). Acho engraçado achar isso revolucionário, quando está sendo ditado para você como moda, disfarçado de consumo inteligente. É inteligente por motivos óbvios - comprar peças neutras obviamente vai fazer com que elas combinem mais entre si -, mas não é inteligente comprá-las para alcançar o armário cápsula dos sonhos. Isso fez algum sentido?

Aquela melissa de plataforma preta e branca não é, absolutamente, um básico neutro que você precise, mas no entanto, estamos todos aqui a desejando em uníssono. Isso não parece estranho para você?

Vamos pensar no tal armário cápsula como uma forma de você repensar o seu armário, você tentar não ceder ao impulso de comprar todas as modinhas que aparecem, você consumir em marcas cujas roupas não sejam feitas de forma ilegal e massificadas. Se uma tendência da Forever 21 (olha lá a quantidade de roupa cinza mescla que tem) está sendo ofertada por 20 reais, é em cima do sangue de várias pessoas de outras partes do mundo. Assistam "The True Cost" antes de entrar nessas lojas de novo. E o mais importante, antes de consumir em lojas que aparentemente são locais, olha a etiqueta de informações técnicas que tem dentro das peças (onde tem as especificações de lavagem que todo mundo ignora): é bom constar Indústria Brasileira, mesmo sabendo que também tem um pólo de mão de obra barata e ilegal vinda de imigrantes.

E ter um armário funcional, para mim, é se dar ao luxo de comprar casacos em pleno verão porque, sim, eles estão muito baratos, e sim, eles vão ser úteis eventualmente, e eles combinam com você. Sem importar se é tendência ou não.


Para ler, ver e pensar sobre:

25 anos. Mora no Rio de Janeiro, é carioca de alma, mas cearense de coração. É designer e está tentando se encontrar nesse mundo. Sou casada com meu melhor amigo, o Marcelo Bernardo, e mãe da Dindi the Boston.

Gosto de ler, de dormir de rede, de inspirações repentinas e de petit gateau. Mas o mundo seria muito melhor sem aliche gente que fura fila. Ah, e de vez em quando eu desenho.

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